26
Set
10

“A cada mil lágrimas, sai um milagre…”

Cresceu ouvindo que Deus criou o mundo em 7 dias e 7 noites.Deus foi capaz de criar. Ela foi capaz de destruir…Não o mundo, mas um amor.

Não tinha aspirina, doril, paracetamol,sonrisal,nem gelo que fizesse a dor diminuir.Mas ela sabia que precisava chorar.Chorou 7 dias e 7 noites,respeitando apenas o horário comercial.

Maria foi  forte das  8h às 12h e das 14h às 18h.

As noites não eram mais para o sono, eram para o choro.

Os dias eram escuros, mesmo com uma temperatura de 38 graus.

Maria se permitiu.Se permitiu a sofrer.Se permitiu a entender cada lágrima que insistia em cair.Incorporou o papel de “vítima” muito bem dessa vez. Sofreu sozinha.Cada sorriso era chapliniano.Cada alegria era um disfarce.Afinal, ninguém tinha nada a ver com aquela dor.

Foi menina em casa dentro de um quarto escuro.Foi mulher na rua e no trabalho.

Ela sabia que o mundo não ia parar para que ela se reerguesse,afinal o mundo nunca fez isso.Se ela fosse dormir mal, o sol voltaria a nascer no dia seguinte sem o menor peso na consciência.

Mas mesmo assim, ela decidiu sofrer.Curtiu o luto.Chorou bastante.Achou por alguns instantes que NUNCA mais sentiria aquilo novamente por outra pessoa,mas  a sua memória trouxe à tona algumas lembranças que  acabaram com este pensamento em questão de segundos.

Maria recusou todos os convites para sair.Dormir era o seu melhor programa, era a garantia das suas horas em paz sem pensar.

A dor agora era dor de gente grande.Palavras e conselhos não surtiam efeito nenhum.A verdade não era mais mascarada.Maria até tentou não ver, mas era impossível não querer entender o que estava gritando ao seu ouvido.Dessa vez o pedido de Maria foi outro.Ela decidiu não sentir mais aquela dor.Antes ela gostava, acreditava que era melhor ter por quem sofrer a não sofrer por ninguém.

A dor, que antes era bem vinda, agora era aquele tipo de visita que a gente reza pra ir embora.

Maria levantou para duas coisas:

1-      Colocar a vassoura de cabeça para baixo atrás da porta;

2-     Procurar no closet a sua couraça de Mulher madura.

Era como se estivesse vendo um filme e a luz do cinema acendesse, o que traz a mensagem implícita de que é hora de  ir embora.

A luz do cinema acendeu e Maria saiu.Um pouco zonza, mas saiu.

E foi aí que ela passou a entender a importância das crises.Entendeu que as crises não aparecem com a única intenção de nos fazer chorar  horas e horas trancadas dentro de um quarto escuro.Elas existem para que possamos perceber o que está funcionando de forma errada…Se a alavanca tá muito pra cima, tá muito pra baixo…Se o freio não tá funcionando…Se o motor tá fraco…

A gente precisa bagunçar todo o guardarroupa antes de arrumar.Então, a crise vem pra bagunçar, para buscar “i” pra botar ponto.

Afinal de contas,a  criança precisa cair quando está correndo para entender que não se deve correr daquela forma.

A gente precisa cortar o dedo para entender que a faca está amolada;

A gente precisa ter ressaca para entender que não se deve beber tanto;

A gente precisa sofrer para entender.

Maria precisou sofrer para crescer.

Maria,agora vestida de Mulher.


4 Respostas to ““A cada mil lágrimas, sai um milagre…””


  1. 26 26UTC Setembro 26UTC 2010 ás 9:53 pm

    É nessas horas que penso: Até onde existem limites para a criatividade e para a imaginação? Sinceramente… quando leio suas “coisas” me perco nas interrogações. Elas me fazem acreditar que escrever é dom e eu ando procurando por esse dom dia e noite!

  2. 2 Pitty
    26 26UTC Setembro 26UTC 2010 ás 10:02 pm

    Sou fã de Maria!!!
    Maria é uma mulher de garra, conheço poucas iguais a ela.
    Menina inteligente que precisou passar por essa crise pra amadurecer de verdade. Assumir suas prioridades e seguir rumo ao sucesso.

    Deixo aqui meus sinceros agradecimentos por fazer parte da vida de Maria e pela honra de viajar em textos tão fantásticos e inteligentes como esse.

  3. 26 26UTC Setembro 26UTC 2010 ás 10:46 pm

    Eu lembro quando você ainda nem era gente grande e já me dizia essas coisas. Foi você quem me mostrou o valor construtivo das crises, quem me ensinou que eu devia me permitir sofrer para depois retornar poderosa e límpida das cinzas (!!!). No fundo, flor, Maria sempre foi gente grande, ela só não sabia.
    É, talvez eu queria ser gente grande um dia, mesmo que o lado de cá seja mais bonito. =)

    Tava com saudade desse seu jeito Maria de escrever, volte sempre por aqui viu? Vai ser um prazer.

  4. 30 30UTC Setembro 30UTC 2010 ás 9:06 pm

    Sem comentários. Alguém de porte precisa ler isso e publicar.
    Faz como fizeram em “A casa dos Budas Ditosos”. Manda pra João Ubaldo que ele publica. Ele publica!


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