As palavras tropeçam como se estivessem em cima de um salto 15.Nessas horas as mãos viram apenas adereços, melhor seria se elas não existissem naquele momento, pois assim não perderíamos muito tempo pensando onde botá-las.É um tal de amarrar o cabelo, abrir trocentas e quarenta e seis vezes a bolsa,mexer no celular e rezar uma três Ave-Maria para alguém te ligar naquele exato momento.A boca já não obedece mais aos seus comandos, quando vc se dá conta já respondeu às perguntas sem mesmo lembrar das respostas que deu.É o início de um verdadeiro descontrole.É um fim de uma agonia de dias.E parece mesmo que é a primeira vez que aquele encontro está acontecendo.
O estômago começa a enviar para o cérebro a mensagem de que está havendo algo estranho.Parece que o estômago foi invadido por uma nave entupida de borboletas desequilibradas,as quais utilizam do espaço vazio (bastante vazio, pois fiquei sem comer o dia todo para aparentar mais magra) para fazer um verdadeiro rebuliço.
As mãos desnecessárias no início parecem agora ganhar utilidade, já se esforçam para ajudar junto à alguma parede o equilíbrio das minhas pernas.A desculpa será sempre de que “tive um dia exausto, podemos sentar em algum lugar?”.Minhas pernas não conseguiriam me sustentar durante mais alguns minutos,garanto!
A mente trabalha o dilema “será que eu estou fazendo a coisa certa?” “Será que eu deveria ter esperado mais um pouco?”, e é só o começo de uma guerra entre o racional e o emocional.Tento me concentrar num exercício de relaxamento qualquer.Mas a tentativa é inútil, nada, eu disse NADA, me relaxaria ali.O racional ganhou a guerra e imediatamente começou a me enviar mensagens negativas de que aquilo era um absurdo, que eu não deveria mesmo estar ali e que eu era uma idiota.Tá bom!!A parte de que eu era uma idiota foi a única coisa que eu concordei com ele, pois quem me olhasse naquela hora saberia que eu não parecia com mais nada além de uma idiota.Apenas uma idiota tem cara de idiota.Minha cara era de idiota.Só uma idiota fica sem jeito como eu fiquei.Só uma idiota chama alguém pra conversar e não sabe o que vai conversar.Só uma idiota não consegue entender o que se passa dentro dela mesma.Definitivamente, EU SOU UMA IDIOTA!Tá bom!!Chega!
A conversa não era sobre o tempo, mas eu não resisti a falar sobre o frio.Era melhor falar do frio do que não falar.E eu precisava exercitar a mandíbula para não paralisar diante de tamanha tensão.
A minha maior raiva não era parecer uma idiota.A minha maior raiva era ver que ele não estava parecendo um idiota.Ele respondia às minhas perguntas como se estivesse conversando com o irmão na sala de casa, sem formalidade e sem medo algum de gaguejar.Já eu??Eu parecia mesmo estar precisando marcar uma consulta com o fonoaudiólogo. Não parava de gaguejar.Minha raiva só perdeu em tamanho para o meu medo de que esse comentário saísse da boca dele.
Um verdadeiro terremoto acontecia dentro de mim e eu não via ninguém que pudesse se responsabilizar pelos danos que ele deixaria.Só de pensar que eu busquei aquela situação já me fazia esquecer o medo e deixar a raiva com a maior intensidade na graduação de sentimentos dentro de mim naquele momento.
O sorriso tranqüilo dele deveria me acalmar, mas me irritava.NOSSA, nunca pensei que aquele sorriso pudesse me irritar um dia, mas me irritava muito.Eu disse MUITO. Como ele podia sorrir tão tranquilamente diante daquele episódio??Eu estava na frente dele querendo conversar e ele não mostrava qualquer tipo de reação que expressasse ansiedade, o sorriso dele era TRANQUILO. MEU DEUS, ELE SORRIA CALMAMENTE enquanto eu me acabava em tensas tentativas de iniciar o assunto .Assunto??Qual assunto ? ?
Eu nem sabia o que eu queria com ele ali.Talvez eu soubesse, só não conseguia expressar isso pra mim mesma.Talvez olhar ele durante aqueles poucos minutos,observar cada linha de expressão do seu rosto, cada piscada natural de olhos, cada gesticulação que ele viesse a fazer…Talvez esse fosse o assunto pelo qual me fez convidá-lo para aquela “conversa”.Eu precisava mesmo saber se ele era de verdade,se ele existia e não iria voltar para o “mundo longe” dele por agora.Saber também se ele aparecia muito por essas bandas de cá do espaço.Precisava mesmo saber se ao abraçá-lo ele não iria evaporar e fazer com que meu abraço fosse em mim mesma.Na verdade o assunto existia e era de grande importância, digamos que de EXTREMA urgência.Na verdade eu precisava mesmo saber se ele respirava como todo mundo,pois cresci sabendo que anjos não respiram.