Cresceu ouvindo que Deus criou o mundo em 7 dias e 7 noites.Deus foi capaz de criar. Ela foi capaz de destruir…Não o mundo, mas um amor.
Não tinha aspirina, doril, paracetamol,sonrisal,nem gelo que fizesse a dor diminuir.Mas ela sabia que precisava chorar.Chorou 7 dias e 7 noites,respeitando apenas o horário comercial.
Maria foi forte das 8h às 12h e das 14h às 18h.
As noites não eram mais para o sono, eram para o choro.
Os dias eram escuros, mesmo com uma temperatura de 38 graus.
Maria se permitiu.Se permitiu a sofrer.Se permitiu a entender cada lágrima que insistia em cair.Incorporou o papel de “vítima” muito bem dessa vez. Sofreu sozinha.Cada sorriso era chapliniano.Cada alegria era um disfarce.Afinal, ninguém tinha nada a ver com aquela dor.
Foi menina em casa dentro de um quarto escuro.Foi mulher na rua e no trabalho.
Ela sabia que o mundo não ia parar para que ela se reerguesse,afinal o mundo nunca fez isso.Se ela fosse dormir mal, o sol voltaria a nascer no dia seguinte sem o menor peso na consciência.
Mas mesmo assim, ela decidiu sofrer.Curtiu o luto.Chorou bastante.Achou por alguns instantes que NUNCA mais sentiria aquilo novamente por outra pessoa,mas a sua memória trouxe à tona algumas lembranças que acabaram com este pensamento em questão de segundos.
Maria recusou todos os convites para sair.Dormir era o seu melhor programa, era a garantia das suas horas em paz sem pensar.
A dor agora era dor de gente grande.Palavras e conselhos não surtiam efeito nenhum.A verdade não era mais mascarada.Maria até tentou não ver, mas era impossível não querer entender o que estava gritando ao seu ouvido.Dessa vez o pedido de Maria foi outro.Ela decidiu não sentir mais aquela dor.Antes ela gostava, acreditava que era melhor ter por quem sofrer a não sofrer por ninguém.
A dor, que antes era bem vinda, agora era aquele tipo de visita que a gente reza pra ir embora.
Maria levantou para duas coisas:
1- Colocar a vassoura de cabeça para baixo atrás da porta;
2- Procurar no closet a sua couraça de Mulher madura.
Era como se estivesse vendo um filme e a luz do cinema acendesse, o que traz a mensagem implícita de que é hora de ir embora.
A luz do cinema acendeu e Maria saiu.Um pouco zonza, mas saiu.
E foi aí que ela passou a entender a importância das crises.Entendeu que as crises não aparecem com a única intenção de nos fazer chorar horas e horas trancadas dentro de um quarto escuro.Elas existem para que possamos perceber o que está funcionando de forma errada…Se a alavanca tá muito pra cima, tá muito pra baixo…Se o freio não tá funcionando…Se o motor tá fraco…
A gente precisa bagunçar todo o guardarroupa antes de arrumar.Então, a crise vem pra bagunçar, para buscar “i” pra botar ponto.
Afinal de contas,a criança precisa cair quando está correndo para entender que não se deve correr daquela forma.
A gente precisa cortar o dedo para entender que a faca está amolada;
A gente precisa ter ressaca para entender que não se deve beber tanto;
A gente precisa sofrer para entender.
Maria precisou sofrer para crescer.
Maria,agora vestida de Mulher.